Tenho medo de ser um herói da fé

Idealizações. A vida é feita delas.

Você vai ao mercado e vê aquele sujeito sentado no caixa com uma barriga enorme à mostra por baixo da curta camiseta, enquanto conserva uma barba mal feita já branca e os cabelos desengrenhados. E pensa: “Pobre homem sofrido”. Em uma analise de 5 segundos já foi capaz de desprezá-lo a ponto de não haver em seu julgamento a possibilidade dele ter sido feliz. Ou rico. Ou as duas coisas. Você julga ser impossível que alguém prefira estar neste estado e local do que dedicando sua vida a outras coisas.

Nas Escrituras Sagradas encontramos um padrão perturbador. Não há homens de Deus sem manchas em seus currículos (com exceção de Jesus), não há profetas que não sejam depressivos e não há bons políticos, ainda que os tais tenham sido “ordenados” por Deus. É como se o recado de Deus para você fosse que não é bom trabalhar com altas expectativas. A vida é feita de vícios. Bem vindo à realidade.

Aí eu morro. Saio com minha Yamaha 250cc pelas ruas, costurando o trânsito como todo bom calvinista o faria e bum! Aquele Camaro amarelo cruza a faixa sem dar seta e me manda dessa pra uma “melhor”. Sempre sonhamos que seremos mortos de maneiras nobres. Ninguém quer ser atropelado por uma carroça ou um ônibus de linha que faz o trajeto Centro-Periferia. Meu padrinho (meu querido tio João Paulo), dizia que queria morrer de tiro. O sonho dele (segundo suas próprias palavras) era chegar aos 90 anos e estar na cama transando com a mulher (uma novinha… de uns 25 anos) de alguém. Aí o “marido” aparece de repente e meu tio salta a janela. Sai correndo pelado pela rua, correndo o mais rápido possível para sua idade. E bum! Toma um tiro pelas costas. Cai morto no meio daquela rua e logo todos os vizinhos e transeuntes param para contemplar a tragédia enquanto a polícia não chega. E diriam “Esse velhinho era foda”. Um belo e glorioso jeito de morrer.

Mas meus medos não englobam a busca pela glória. Pelo contrário. Ter uma meia dúzia de gente no velório deve ser bom, mas acho que depois de morto não vai fazer tanta diferença pra mim. O que me preocupa é que todo mundo que morre vira santo. Acaba a sinceridade dos julgamentos que fazemos o tempo todo a respeito um dos outros… todos viramos grandes amigos e as poucas histórias que compartilhamos tornam-se idealizações.

Como os “heróis da fé”. Homens que realizaram grandes feitos em suas épocas, mas… gente como a gente. Falam de Lutero, Calvino, Wesley, Armínio como se eles fossem o próprio Cristo. Esquecemos das manchas do currículo de todos. Criamos para eles estátuas, denominações, sistematizações doutrinárias, feriados. Como Luther King Jr. O grande pastor (que aliás passei a admirar ainda mais quando descobri suas “manchas” de currículo) mobilizador da luta pelos direitos civis nos USA, morreu em meio a denúncias pesadíssimas de ter cometido adultério em mais de uma ocasião. Mas… preferimos deixar esta história pra lá. Afinal, ele morreu. Virou um herói.

O ponto que defendo não é de que precisamos ficar escarafunchando a vida dos defuntos. Só que também não dá pra aceitar este nível de idealização a respeito de todos que morrem. Não dá pra olhar pra tudo que Davi Miranda fez com sua organização chamada Deus é Amor e dizer “nossa, que homem usado por Deus”. Se for pra medir as coisas pelo poder de mobilização de recursos, Edir Macedo é vice-deus… se for pra medir pelo número de pessoas abençoadas, Chico Xavier é maior que Ghandi. O exemplo de todos os homens usados por Deus na história não é para que você fique orando 4 horas por dia, para que viaje o país evangelizando a cavalo, pra entrar pro governo e revolucionar a questão social em sua cidade. Era apenas pra você aprender que Deus usa gente RUIM para fazer coisas BOAS. O Senhor empresta um pouco de sua bondade aos homens e nós, seres desprezíveis, não resistimos a ela.

Ou seja… vamos dar nome aos bois. Espero sinceramente que no meu acidente com a Yahama 250cc haja amigos de verdade no meu velório. Uns pra chorar pelo homem de Deus que eu fui (às vezes eu consigo)… outros pra dizer “esse filho da puta foi a prova viva da Graça de Deus, pois se ele vai pro céu, há esperança pra todos nós”.

Simples assim.

Não me coloquem no rol dos heróis. Que aquilo que minhas mãos fazem seja lembrado, enquanto meu nome repouse no esquecimento. A Deus toda a Glória. E, se possível, um pouco desta glória pro meu tio assassinado pelado no meio da rua. O velhinho foda.

2 comentários em “Tenho medo de ser um herói da fé

  • 4 de dezembro de 2017 em 10:49
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    Tenho sérios problemas com relação a isso, infelizmente eu vivi em um meio religioso e me deixei influenciar muito por esse ambiente, gostaria muito de voltar ao primeiro amor, mas não consigo, esse medo é um deles, já conversei com diversas pessoas sobre isso e não consigo encontrar uma resposta,

    Ótimo texto.

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  • 12 de dezembro de 2017 em 01:30
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    cara na boa acredito eu que a conversao vai ate a morte da pessoa e que e um processo e um destes processos e o primeiro amor , pense assim ok blz mas cara vc e semente o primeiro amor nao saiu de vc ainda esta ai mas agora que deus te deu uma missao ele te amou vc sentiu este amor agora passe isto para frente ame o seu irmao como deus te amou e com certesa vc sentira o primeiro novamente so agora mais vezes comunhao tente isto te garanto que ai vc vai ententer ,e olha so nao estou dizendo que vai ser facil mas tente lembrece o amor nao e egoista se for nao e amor.

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